2.15.2009

Escrever-te

Queria escrever-te, queria escrever para ti, mas não te encontro nas minhas palavras, não as sei juntar de forma que dissessem como eu te vejo, como te sinto, e se é que isto faz algum sentido, hoje sei que não nos encontramos no tempo certo para que pudéssemos acontecer, no entanto sou o mesmo que te cativou e em ti existem ainda todas aquelas coisas que me levaram ate a ti, embora as tentes esconder dos olhos do mundo.
Não te sinto longe, que a distancia é apenas mais uma ilusão entre todas as outras que desvanecem quando aprendemos a derradeira lição de que nada verdadeiramente se possui.
Leio-te, releio-te e a cada palavra tua uma catadupa de emoções, vejo-te muito mais poeta do que algum dia ousarias pensar ser, tão para alem do que me guia, inexoravelmente superior.
Remeto-me pois ao silêncio para não te atrapalhar,
e a vida segue de longe o paralelismo dos nossos sonhos.

1.23.2009

Hoje é minha a noite


Noites de chuva, as noites como esta, em que me entrego, deixo-me ir por estados de espírito que normalmente evitaria, mas não, hoje entrego-me a esta solidão sempre tão presente, sempre tão disfarçada, maquilhada, confundida.
Deixo-me ficar na companhia do copo de tinto e o piano de Chopin e volto na cair na nostalgia até serem tristes as paredes que me rodeiam, as paredes que eu quis pintar, que quis mudar, brancas e frias e que continuam iguais. Que hoje eu sei que serão sempre iguais, que a imensa tristeza não reside lá. Eu sei.
São estas noites em que eu vivo só por ter vivido, existo só porque o cheiro, o tacto, o sabor dos dias que passaram está irremediavelmente em mim e é tão fácil encontrar-me numa qualquer teia do tempo, à janela de um sorriso.
A chuva cai lá fora…e…cá dentro a noite esgota-se em mim, nostálgica, triste, tão minha, tão profundamente minha…

11.10.2008

Dizeres IX

Um dia eu disse-o, eu sei, ainda me lembro bem, as palavras pronunciadas em tom de certeza. Certeza meu deus, como se alguém tivesse alguma certeza, de alguma coisa.
Hoje tudo soa tão distante. O que eu sinto é a placidez de um lago com vida mas sem nada mais do que isso, e tudo segue como se nada se perdesse, como se o tempo não nos arrancasse bocados, como se a alma não se ressentisse do frio dos dias.
Disse, é verdade, disse-o porque sentia ou porque queira sentir.
Fiquei quando o espírito corria a todo o folgo na direcção oposta, e o que me restou foi o fim da linha, foi amar desesperadamente no fim dos capítulos, foi pedir o mundo quando a fome se matava com migalhas e agonizar mesas fartas de tudo, foi acordar um dia e não saber o que fiz do tempo que passou entre o sonho e a solidão. Hoje digo apenas que já não importa o que disse.

10.19.2008

Reflexão

Afinal que quero eu que nunca me basta?!
Que espero eu que nunca chega?!
Que sonho eu que não existe?!
Quem vive cá dentro de mim,
quem me atrai até ao precipício e se esfuma numa névoa indecifrável?
Quem sou eu? Quem é esse que me habita?

Talvez seja eu mesmo,
só eu,
num espírito demasiado lúcido para ser um só!

9.25.2008

Para ti

Amei as palavras que roubavas ás penas dos poetas. A tua bíblia de descrentes aromatizada de quiméricas visões de um sentimento friccionado e ainda por definir. Chamavas-lhe Amor.
Amei a tua imagem no meu pensamento, difusa, vacilando entre a boémia e o mais profundo auto-isolamento na solidão.
Mas não, nunca te amei.
Não ficaram palavras por dizer. Filtrei o prazer dos nossos momentos, a nossa voluptuosa entrega no nosso sacrílego impudor e nada me restou, das tuas palavras ficou a fantasia do que alguém um dia sentiu, alguém que não tu. Não me soubeste ver, não me conseguirias ler. Dissemos adeus e eu, que conheço o peso crepuscular de cada letra dessa palavra, disse-o na consciência que nada mais te diria.
Respondo pois à tua incessante pergunta no absurdo ta tua condescendência. Não te quero, nunca soube quem tu eras e tu nunca saberás nada de mim. Rasgaste as páginas desse livro, e eu deitei-as ao vento.

9.05.2008

Um novo sorriso


Novos planos, novos dias se avizinham e adivinham-se excitações e desafios e seguramente desilusões e frustrações mas, mesmo sem as janelas que se prometem abrir quando uma porta se fecha, amanha é sempre outro dia e podemos sempre olhar um novo dia como uma nova oportunidade, uma nova possibilidade.
Na bagagem trago o passado, presente na forma como vejo o mundo, como encaro a vida. O que quis fazer e não fiz, o que fiz sem querer, o que tive e que perdi, o que pensei ter e nunca tive, tudo isso sou eu, já bem diferente do que fui.
Mas hoje tudo é diferente e fico uma vez mais a olhar o mar e o horizonte, a praia é a mesma, a mesma areia molhada nos pés, a mesma brisa salgada, o rosto é o mesmo não fosse um sorriso que desponta naturalmente perante o cenário de uma beleza esmagadora. Esse mesmo cenário que um dia foi tristeza e abandono hoje é este sorriso de consciência e de esperança nos dias que virão.
Não sei o que em mim mudou, sei apenas que me cansei de procurar o que não se procura, de ter o que não se possui, de receber o que se encerra no verbo dar.

8.21.2008



Agora já é tarde…
E não, não é por ti,
Fui eu que me fartei do teu olhar, do teu rosto, da tua ausência.

Fartei-me de ti e de mim a tentar chegar a ti.


foto from olhares.com

8.03.2008

Dizeres VIII

Este sentir do fado, este arder quando a noite cai, este chorar com os poetas em rimas intemporais e sentir que a alma chora e que decora as expressões que nos dão esses poemas e viajar com Eugénio de Andrade ou ser a definição única de Álvaro de Campos ou transbordar de mãos vazias num verso de José Régio e no fim morrer de sede nesse rio sem leito e sem limites num soneto fantástico de Florbela.
Este sentir que ninguém sabe que eu sinto, este estar por aqui e nunca ficar, este voltar a estar e nunca, nunca ficar por aqui… este ser as duas faces da mesma moeda ou dois parágrafos iguais do monologo de um louco e ser muito, muito mais do que pouco e sufocar da mingua que se sente.
Quem sabe ser voo de gaivota e mergulhar no abismo profundo de um azul que amanhece sempre, sempre igual…
E o que faltar dizer que seja espuma na infindável rebentação das ondas contra o cais...

7.30.2008

Longe...


Não chegaste em manha quente de Verão.
Não te amei à luz de uma lua de prata.
Não, não chegaste do nada quando já não imaginava que chegasses, porém juntos saboreamos um silêncio extasiado quando as palavras não eram de acontecer.
Gravei o teu nome num céu de todos os dias e em noites claras és brilho magico de estrelas e nas noites de breu aconteces para além de todos os Verões.
Nunca te chamei meu amor para não te perder em ilusões mas o meu nome na tua voz foi sílaba de um poema.
O teu beijo, trago-o na pele como um segredo que me faz sorrir, um segredo que ninguém sabe, que ninguém vê, que ninguém pode ver!
E à noite, quando te sei bem distante, quem sabe em que ruas, em que casas, em que festas, em sonos ou sonhos.
Quando sei que não me podes ouvir, chamo-te baixinho Meu Amor e aconteces em mim como eu sempre te sonhei…

7.02.2008

Muito mais só...

Estou muito mais só agora que a noite caiu.
Muito mais agora que não sei se sei porquê.
Agora que a tua voz é um eco que se quer esquecido,
Um som que o vento deixou de me trazer.

6.22.2008


Estou cansado e procuro-te onde te deixei. Não estás, e sei que mesmo que estivesses não estarias. Não te mereço. Estou cansado e tenho tudo por arrumar, por catalogar. Fazes-me falta! Não sei onde te buscar, não sei de ti! Não sei de mim. Estou cansado. Tudo tem contornos de incerteza. Não te mereço. Mesmo. Pareço um dia que misturou as quatro estações. Nunca choro! Recordo a magia do teu beijo. Estou sem sentido, sem rumo, sem âncora. Não quero a sombra daquele dia, quero a luz da noite em que te tive e a loucura exaltante de não poder adormecer no chão olhando o tecto porque o coração pairava acima de nós…
Estou tão cansado.
Fazes-me falta!


Foto from olhares.com

5.11.2008

momentos


Sento-me a olhar o vago como se o tempo se fizesse notar apenas no avançar silencioso dos ponteiros do relógio, porem o céu mudou de tons e a luz despede-se lentamente do dia. O tempo passou.
Há um cansaço aliado a esta gravidade que me aterra aqui, há uma ausência de lágrimas e de sorrisos que dão ao meu rosto um ar de estátua concebida sem grande emoção. O meu peito é como este jardim de terra revirada, cavado a bruto sem a bênção do suor de quem trabalha a terra para ganhar a vida. Nem a chuva lhe ofereceu o perfume a terra molhada, mas em breve cobrir-se-á de verde e de vida.
Vou ficar por aqui mais um pouco que já se sente o frio do fim do dia e o arrepio na pele lembra-me o abraço que há por sentir, o beijo que existe por dar, os poemas ditos no silêncio e quem sabe a emoção de tudo isso morando no olhar.
Agora está mesmo frio, vou em busca de abrigo sorrindo no conforto de saber que existes.



foto from olhares.com

5.06.2008

Se...

Deixa-me contar-te baixinho ao ouvido aquelas historias que só eu sei, deixa-me contar-te as aventuras que só eu vivi, deixa-me mostrar-te aquele sonho só meu, onde eu amei como só eu amo, como se esse amor de que te falo fosse o meu amor, único e de mais ninguém. Sem mágoas nem rancores, sem pudores nem subterfúgios, deixa-me mostra-te a magia que existe num simples cruzar de dedos, o sentimento que acontece dentro de quatro paredes e que transcende o quarto e a casa, o bairro e a cidade.
Deixa-me ser eu nessa verdade de não saber ao certo quem sou. Deixa-me acontecer na tragicómica encenação de todos esse que eu fui.
E se um dia eu puder ser tudo isso no silêncio dos teus braços, tu serás um rio nascendo e fluindo dentro de mim.

4.24.2008

Silêncios


Os dias também vivem do silêncio, quando a vida se cansa das palavras gritadas sem eco e sem retorno. Cansa-me o choro, o desabafo, os poemas, a tinta e o papel.
Nos dias em que tudo o que me sobra é um tempo prisioneiro do próprio tempo, que não sendo meu, sempre passa como a maior verdade de sempre.
Dias em que me grita bem do fundo da alma uma solidão que tenho que sentir, que é minha e de mais ninguém, como um luto sem eu saber de quem, sem saber de quê!


foto from olhares.com

4.02.2008

Dizeres VII

Ao meu “poetinha”

Havia entre nós um espaço enorme onde morar.
Erguemos copos de um vinho bom. Celebramos a fantasia de uma solidão adiada, ressentida. Num tempo que se quer sem curvas, que se quer intenso, que se quer por mais. Sem subterfúgios. Sem vincos de um passado alojado por entre a alma e a pele.
Havia uma janela aberta a uma madrugada feliz, havia a ternura de ver crescer o que se plantou. Havia muito sol poente em horizontes de azul. Havia uma imensidão de sonhos por cumprir.

Entre nós havia um espaço enorme onde morar!...

2.06.2008

Dizeres VI

Está tudo igual, está tudo assim…
Latente, encubado, adormecido
Como se desta espera jamais nascesse um amanha, um novo dia…
Tudo silenciado, Sufocado, Inacabado…
Tudo à espera de um grito…ou não!
O pensamento parece ecoar pelas paredes húmidas e despidas.
A voz que um dia teve som e expressão já nada diz.
Já nada se ouve. Já nada importa ouvir. Já nada importa dizer.
Na quietude da noite apenas eu e a luz ténue da fogueira.
Brasas que morrem lentamente em vermelho esbatido.
Inerte, sem lágrimas nem gestos. Hoje sei que já não voltas.
Em breve tudo será apenas cinza, e breu, e frio e nada…

1.30.2008

Sorriso...

Hoje sem contar tinha um sorriso à minha espera.
Não um sorriso novo, mas um que estava na gaveta onde se guarda as emoções que não se esqueceu…alguém a abriu e fez-me brilhar de novo num sorriso já usado, mas genuíno e verdadeiro…
Dormirei melhor certamente.

1.15.2008

Dizeres V


Hoje sou um daqueles dias sem graça, quando o horizonte confunde o céu com o mar numa névoa cinzenta e fria.
Não sinto nada, emocionalmente inerte, vejo o tempo que passa trazendo a chuva que deixa as ruas num abandono esquecido, depois o sol faz transpirar os vidros da janela. O meu olhar perdeu-se na paisagem que não vi…
Voltarei a unir os cacos do velho castelo de vidro tantas e tantas vezes destruído? - Não sei!
Os sentimentos estão lá, apenas dormem como num encantamento de contos de fadas. Uma espiga numa ceara em campo aberto à espera de um novo vento…

12.10.2007

E se falo de...

E eu, que sonhava conhecer o mundo inteiro, deixo-me ficar esquecido no conforto de não ter que sair daqui…
E se falo de mar, falo da ponta dos teus dedos,
Se falo de azul renego os fantasmas na memoria dos nossos desejos.
Eu, que não me recordo de ter tido nada, comove-me, que na tua fantasia um dia tenha sido teu e que tenhas, enfim, existido por nós. Desvario!
Mas se falo de verde é só porque o brilho dos teus olhos me assombra.
A noite chega outra vez…fria…cruelmente igual a todas as outras, espreitando-me pela janela, certa de que eu repetirei os mesmos gestos!
E se falo de ti é só para fugir de mim, do que eu tenho, do que eu sou.
Vou desfiando soluços nessa ambígua imagem que te ofereci, algures entre os restos do que um dia fui!..

foto from olhares.com

12.07.2007

Para além das palavras

Já não me serve a tua imagem no pensamento,
Nem as letras das canções, nem os poemas que tomámos como nossos, nem a musica calma entoando nas horas arrastadas de solidão.
Já não leio as dedicatórias nem os teus textos em formato digital.

Preciso de ti, do que tu és por detrás das palavras, preciso olhar-te nos olhos, preciso do cheiro da tua pele, preciso de um abraço, preciso de materializar-te em mim…

Sinto a tua falta, tanto já, que imaginar-te esgota-me!

12.01.2007

Por-do-sol


O final de tarde visto da minha varanda! :)

11.25.2007

Dizeres IV

Imagino-me um barco navegando um oceano imenso.
Um barco sem velas num mar sem vento.
Por vezes as ondas fazem ranger as velhas tábuas de madeira gasta e esbatida e tudo adquire um tom fantasmagórico.
Não sei o que me fez partir nesta viagem, não sei se algo me empurrou, se tropecei no destino ou se estava no porto e simplesmente embarquei…
À noite experimento miragens ou alucinações que sempre me vão levando para longe daqui, que vão moldando o horizonte que a luz do dia mostra sempre igual.
Deixo-me levar pelo balanço e rumo em direcção a terras prometidas.

Sinto ventos de sorte sobre velas inventadas…e sigo…sem terra à vista nem porto de abrigo…

11.16.2007



Não me perguntes o porquê deste silêncio…

Mais uma noite caiu, e para ti, tenho apenas o eco das palavras já tantas vezes repetidas. Hás-de lê-las na escuridão do teu quarto entregue a isso que te resta.

Não me fales de solidão e de distancia…

Trago na alma o cais das partidas, as noites em claro, o rosto exausto de muitos dias olhando a imensidão azul por aqueles que haviam de voltar.

Não me fales de futuro nem de esperança…

Afinal, é a resignação nesses teus gestos que vai quebrando o ritmo dos meus passos, é a ausência da tua voz que me vai mergulhando no silencio do tempo.

Não me perguntes pelo amor que tu sonhas e que eu sinto…

Esse amor das tuas palavras bonitas que eu espalho em todas as horas do meu dia e com que tu enfeitas as folhas nas gavetas escondidas…

Não me perguntes o porquê do meu silêncio
Quando ambos sabemos que é o teu que nos separa.

11.12.2007

Quando o amor vacila


“Eu sei que atrás desse universo de aparências, das diferenças todas a esperança é preservada, nas xícaras sujas de ontem o café de cada manha é servido, mas existe uma palavra que eu não suporto ouvir e dela não me conformo. Eu acredito em tudo mas eu quero você agora.
Eu te amo pelas tuas faltas, pelo teu corpo marcado, pelas tuas cicatrizes, pelas tuas loucuras todas minha vida. Eu amo as tuas mãos, mesmo que por causa delas eu não saiba o que fazer das minhas, amo o teu jogo triste. As tuas roupas sujas é aqui em casa que eu lavo. Eu amo a tua alegria mesmo fora de si, eu te amo pela tua essência, até pelo que você poderia ter sido se a maré das circunstancias não tivesse te banhado nas aguas do equivoco. Eu te amo nas horas infernais e na vida sem tempo quando sozinha bordo mais uma toalha de fim-de-semana.
Eu te amo pelas crianças e futuras rugas eu te amo pelas tuas ilusões perdidas e teus sonhos inúteis, amo o teu sistema de vida e morte, te amo pelas tuas entradas saídas e bandeiras, eu te amo desde os teus pés ate ao que te escapa.
Te amo de alma para alma... e mais que as palavras ainda que seja através delas que eu me defendo quando digo que te amo mais que o silencio dos momentos difíceis quando o próprio amor vacila.”


Maria Bethania in "Maricotinha ao Vivo"

10.23.2007

Ofereço-te

Ofereço-te este resto que o passado esqueceu!
Este brilho dos olhos que escondi como um tesouro,
Esta falta com que iludi o mundo inteiro,
Este sorriso morno e gasto que usei todos os dias em que tive que sorrir.
Ofereço-te tudo o que eu sou nessas ruas sem nome, nas multidões sem rosto, no alinhamento dos casebres carregados de simplicidade e de flores coloridas nas janelas.
Na liberdade suspensa nas asas dessa ave que sempre voou longe de mim. Nessa terra onde a vida troca diamantes por pedras de calçada.

Ofereço-te esta ausência de tudo o que eu sou na nudez da minha alma, vibrante, iludida…tranquilamente inquieta.

10.17.2007

Divagando

Não sei de nada. Não sei mesmo! Apenas que esta musica e este cigarro são o conforto neste quarto branco e frio.
Há dias em que me vejo sorrir, entre a memoria do beijo longo e a cumplicidade do abraço roubado ao tempo que nos roubavam. Tínhamos sempre tão pouco tempo, lembras-te?
Era sempre noite e a sensação de fuga fazia bater mais forte no peito o coração. E fugíamos nem sei de quê, íamos de fuga em fuga como se não pudéssemos parar.
Davas-me a mão para me dizer, sem as palavras que sempre preferias reter entre a garganta e o olhar atento à estrada, que tudo estava bem, que renascíamos bebendo estes momentos tão únicos, tão nossos ate a exaustão dos sentidos, como se o saciar dessa sede fosse o indicio de um desejo infinitamente insaciável.
Não sei de nada, não! Mas quero-te nestas divagações a que me dou quando a solidão fala mais alto, nesta ansiedade que vou disfarçando mais um dia até que possa, de novo, renascer em ti.

10.12.2007

Dizeres III


Recordo-me que o mundo era bom quando segurava a mão da minha mãe nas voltas da cidade. Quando adormecia junto ao seu peito, com a segurança do seu braço firme nas minhas costas, durante as lentas viagens de autocarro.

Cresci, tudo se complicou, e as vezes preciso tanto deitar-me nesse conforto que o tempo arrancou de mim.

10.05.2007

Dizeres II


Queria escrever-te, mas as palavras estão velhas e gastas, arquivadas, rebuscadas, como gavetas cheias de coisas fora de tempo e assombradas de memorias. Sei-as de cor e guardo-as para te sussurrar ao ouvido quando o amor deixar de queimar como acido na pele da alma. Guardo-as para nunca tas dizer.
Enquanto algures por aí, alguém escreve poemas de amor,
tu
Deitas-te de longe no silêncio do meu rosto adormecido,
e eu acordo em ti,
exposto, como o céu na superfície nua do mar.

10.01.2007

Poema


Queria um poema escrito por minguem e ninguém nunca o encontrasse, com cheiro a eucalipto e a mato.
Sonho com um poema sem rimas, pleno e absoluto, a saber a maresia e a vento.
Um poema que envergasse a lucidez do sol marcando o tempo, e a
força da chuva varrendo os tectos da cidade.
Queria muito mais profundo o oceano e muito mais longínquo o firmamento, trazer as mãos carregadas de estrelas e o coração pulsante como um vulcão em chamas.
Um poema feito essência…leve…com aroma de terra molhada pela manhã. Que te invadisse a alma e os sentidos, que te levasse a uma dimensão etérea, onde a melodia perfeita dessa musica que eu não sei, fosse palavras a renascer continuamente…
E nesse poema que não sei se existe, guardo tudo o que tenho para te dizer…
…aqui no outro lado de mim.
foto from ollhares.com

9.12.2007

Depois de ti...


Depois de ti passaram muitas vidas!

Depois de ti romperam madrugadas detrás de outras janelas, encheram-se de verde muros outrora vestidos de cinza.
Depois de ti, houve confortos nascidos nos gestos repetidos de iludir a face que o espelho reflectia.
Depois de ti eu, sempre eu! Ainda cá estou e tantos dias que fugiram.
O velho caderno mudou de textos e de tinta. O Outono voltou a despir as árvores na rua que passa mesmo á tua porta, e eu parei para ver se ainda te via, mas meu amor, isso foi depois de ti, e a rua era só o vento que corria.


foto from olhares.com